Para quem não resiste e devora o prato cheio de sua comida favorita é difícil entender como alguém consegue parar ao primeiro sinal de saciedade. Comer só quando estiver com fome, sem extrapolar nas quantidades, é a receita para não engordar. Mas como fazer quando a comida domina sua vida?
É comum ouvir a expressão “cabeça de gordo” quando se fala de hábitos e pensamentos que levam ao comer compulsivo, por hábito ou para descarregar as emoções. “Muitas pessoas fazem dieta a vida inteira e depois voltam a engordar. O problema é que a causa do ganho de peso não foi cortada, mas sim seu efeito, apenas com redução das calorias consumidas”, diz o neuropsiquiatra Sidney Chioro.
Médicos concordam que a má relação com a comida é uma das causas da obesidade. “O excesso de dietas pode ser resultado de não se trabalhar os comportamentos. Nossa sociedade dá muita importância para a questão da alimentação, para a magreza. Isso gera um comportamento obsessivo com a comida. Uma mente gorda pode existir em alguém que não come, mas só pensa em comida”, explica o psiquiatra argentino Maximo Ravenna.
“O estresse, a baixa autoestima, a depressão, a perda de interesse e prazer em situações cotidianas e a ansiedade são manifestações psicológicas desencadeadoras da obesidade”, acrescenta Luciana Ferreira Ângelo, responsável pelo departamento de psicologia da Sociedade Brasileira de Hipertensão.
Já o psiquiatra Adriano Segal, coordenador do Departamento de Psiquiatria da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), afirma que a obesidade é uma doença grave e que a sua incidência não pode ser vista como uma consequência de aspectos psicológicos. “Dá trabalho, mas o fato é que a quantidade de comida tem que ser igual ou menor ao que a pessoa gasta. Se for maior, é suficiente para ganhar peso. Independente de quanto você come”.
Apesar dos cuidados, especialistas ensinam que também é importante encarar a alimentação como algo natural, prazeroso e saudável, em vez de encará-la como uma solução para problemas, principalmente emocionais.
A psicanalista inglesa Susie Orbach aconselha, em seu livro “Sobre a comida: reaprenda a comer e mude sua vida”, a descobrir por que você come quando não está com fome. Esta é uma das chaves para ter o peso adequado. Ela também indica só comer quando estiver com fome, comer o alimento pelo qual seu corpo sente fome (sem restrições que só acabam aumentando a vontade de comer), saborear cada bocado e sentir seu gosto, e parar de comer no instante que identificar que seu organismo já está saciado.
O comer errado leva a uma desorganização de todo o organismo. “O impulso de comer leva a pessoa comer do jeito que engorda. Aí, então, ela não forma saliva e secreções digestivas suficientes. Todo o aparelho digestivo passa a funcionar errado”, explica o Chioro, que aplica uma técnica de projeções para superar a compulsão por comida.
Ravenna, que também tem uma técnica própria para combater o comer emocional, aponta que o paladar se acostuma e vira “dependente” de certos tipos de alimentos. “Estudos comprovam que alimentos calóricos têm um poder muito forte no cérebro, similar ao das drogas, o que favorece o vício e um comportamento obsessivo. Uma pessoa que bombardeia seu corpo durante muito tempo com comidas calóricas gera um condicionamento dos neurotransmissores. Aí, ela perde a noção do que é a fome”.
“Eliminei 33 kg apenas prestando mais atenção nas minhas ansiedades. Identificando o que queria no momento em que atacava a comida. Sem saber por quê, eu acabava indo para a geladeira”, relata a veterinária Janaína Santos.
Segundo Chioro, se a pessoa comer pela fome biológica, controlada pelo hipotálamo, ela vai ser magra. O problema é quando o sistema límbico entra em ação na formação das emoções, que desde cedo são atreladas à alimentação.
“As pessoas aprendem a relacionar a comida como algo de bom que ela está se dando, um presente. As emoções devem ser trabalhadas como emoções e não descontadas na alimentação, que tem outra função biológica”, diz Ângelo.
E o problema aparece quando isto passa a ser um hábito, destaca o argentino. Lembra do copo de água com açúcar para acalmar ou do delicioso bolo da vovó? O doce passa a ser visto como algo que acalma, reconforta e é a ele que você vai recorrer quando estiver mal. Ou vai comer tanto bolo na busca daquela sensação boa que você tinha quando era criança.
Este é um bordão de Ravenna. Ele diz que a pessoa come para se acalmar ou porque está triste e acaba engordando, e aí come mais ainda porque sua autoimagem é prejudicada, o que diminui a autoestima. O primeiro passo para sair deste ciclo é pensar na função da comida em sua vida. Ela está suprindo a fome ou algum problema? "É comum as pessoas escolherem alguns alimentos e abusarem apenas deles como chocolate, pizza ou refrigerante. Elas acreditam que só aquele alimento as podem tranquilizar", lembra a psicóloga.
Tirar da comida o foco da sua vida e questionar hábitos também ajudam. “A comida para o obeso passa a ser um tema sempre presente nas conversas. Você pode estar preocupado com o que comer ou que não deve comer, mas sua vida acaba se baseando apenas nisso, em pensamentos reiterados sobre comida”, alerta Ravenna.
Adailton Sparaviezi sabe bem o que é isso. “Eu ia ao cinema e não pensava no filme que ia ver, só queria saber da pipoca e da coca-cola”, conta o ex-obeso que emagreceu 45 kg em 2 anos com o método de Chioro. Ele diz que as principais lições foram identificar quando estava saciado e parar de comer e quando estava comendo por hábito e não por fome.
Alguma mudança em seu cardápio? Sim, o churrasco. “Antes eu não comia para não engordar, agora eu sei que eu posso comer um pouco que não tem problema”.
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